segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

Calendário CPIS

Quem se quer juntar a nós no caminho?

17 Fev:            Parada Aguiar - Vidago
9 Mar:             Vidago- Chaves (dormida no albergue de Chaves)
10 Mar:           Chaves -Verin
23 a 29 Mar:   Verin- Santiago
30 Mar:           Regresso a Portugal

segunda-feira, 14 de janeiro de 2013

1.ª Etapa CPIS


Saímos cedo para um dia de Janeiro muito húmido, com temperaturas a rondar os 3.º, mas o frio acabou por não ser um problema, pois assim que começámos a andar aquecemos.

A nossa primeira etapa tinha 26,8 Km e ligava Vila Real a Parada de Aguiar, no entanto, nós não começámos em Vila Real, mas sim perto de casa dos meus pais, em Adoufe, por isso devemos ter percorrido cerca de 20 km. Demorámos precisamente 5h: às 13h já estávamos no destino e ainda conseguimos ter o habitual almoço de Domingo em família.

Há já algum tempo que queria fazer o Caminho de Santiago, começando em casa dos meus pais. Uma vez que dali até Santiago são mais de 11 etapas, decidi fazer aquelas que percorrem o território nacional em dias alternados (sensivelmente uma vez por mês). As últimas, já em Espanha, quero fazê-las seguidas, durante uma semana.

Logo depois de termos passado a igreja, que me acolheu religiosamente todos os domingos durante o tempo em que ali vivi, descemos ao rio. Por incrível que pareça, foi preciso seguir as setas amarelas do Caminho para atravessar pela primeira vez uma ponte muito antiga, talvez romana, que atravessa ali o rio e está tão perto da outra, mais moderna, onde tantas vezes passei. O caminho subia depois em direção a Coêdo, nós discutíamos a veracidade das comemorações dos 700 anos da fundação daquela aldeia. No meio da aldeia, ao lado da capela, um grande toldo tirou-nos as teimas: “800 anos de foral”. Granito e vacas que passeiam indiferentes a caminheiros ou manhãs de frio testemunham ainda essa história.

Ainda não tínhamos saído dessa aldeia, quando fomos ultrapassados por um grande grupo de caminhantes, não iam para Santiago, pois mais à frente viraram para a estrada nacional, desprezando as indicações das setas amarelas. De admirar a sua determinação, estar ali, naquela hora, não era para todos.

Nós não éramos todos. Fomos apenas um motivo para o caminho existir. Mesmo quando ele nos mandava para a berma da estrada nacional, como aconteceu em Escariz e, mais em cima, entre Benagouro e Vilarinho da Samardã. Entre Escariz e Benagouro descemos por caminhos muito antigos quase até ao rio e chegámos a acreditar que seria ali que atravessávamos o Corgo, talvez por uma ponte da qual não saberíamos dizer a idade. Mas o caminho agora subia. Pior do que a subida, para quem não levava galochas ou botas impermeáveis, era a água que o cobria, transformando-o num ribeiro. A saltar de pedra e a enfiar algumas vezes o pé na lama, o meu pai reclamava. Ele sabia que havia outro caminho melhor e não percebia porque é que teimávamos em seguir as setas amarelas.

Gostei muito de conhecer Benagouro, outro dos sítios tão perto da minha aldeia natal onde eu nunca tinha ido. As casas de granito estavam na sua maioria preservadas e a aldeia dormia em paz, bem lavada.

Também a Vilarinho da Samardã fui pela primeira vez, ali ri-me do eucalipto centenário plantado pelo Pe. Luís Castelo Branco e visitado pelo então Primeiro-ministro Aníbal Cavaco Silva, em 1994. Dois rapazes seguiam muito limpos para a missa, deviam ter uma diferença de 3 ou 4 anos entre eles, mas as suas roupas eram exatamente iguais até ao mínimo pormenor, como se fossem gémeos. Contornámos a casa onde viveu Camilo Castelo Branco e onde, segundo a inscrição, passou os melhores tempos da sua mocidade.

Dois cães, pequenos, mas ameaçadores, vieram até nós e a minha mãe deu-lhes um pouco de bolo Teixeira que íamos a comer. O caminho depois descia muito, as fragas que o cobriam estavam tão gastas e tinham tanta água que nós temíamos escorregar, mas isso não aconteceu. Lá em baixo o rio. A natureza. O poder das águas. Do outro lado da encosta, a miragem da antiga linha de comboio agora desativada e transformada em ciclovia. Atravessámos o rio por uma ponte de cimento muito estreitinha. O Inverno dava-lhe vigor e ele cantava vitorioso, arrastando consigo troncos de árvores e muita espuma. Cheirava a fresco e a húmus. Parecia o primeiro dia do universo.

O estradão que subimos depois até à linha era recente. Foi uma das partes mais difíceis desse dia, mas não custou assim tanto. Quando atingimos a linha foi um alívio, sabíamos que a partir dali já não subiríamos muito mais.

Os quilómetros seguintes foram por isso bálsamo para os nossos pés e os nossos sentidos. A estrada de terra batida que cobria a antiga linha acariciava os pés. A ausência de marcas humanas na paisagem lavava-nos olhos, mais do que os chuviscos, puxados pelo vento, que caiam de vez em quando.

“Covelo lá em cima” – mostrou-me o pai. Entrámos no concelho de Vila Pouca de Aguiar e percebemo-lo logo pelo asfalto que cobria agora a linha. Os nosso pés torceram o nariz.

Ali perto podia haver lobos, mas isso não nos assustava nada porque o caminho agora era a descer. Ao fundo, o grande vale de Vila Pouca.

À entrada de Tourencinho, cruzámo-nos com ciclistas que faziam o caminho em sentido contrário. A aldeia inspirava confiança: modernidade e tradição muito bem alinhadas no Lar de Idosos e Centro Cultural, onde dantes havia uma estação ou apeadeiro.

Depois, continuando a ser fiéis às setas, saímos da linha e seguimos por caminhos entre lameiros, perto do rio. O meu pai reclamava e ameaçava voltar para a linha, mas não o fez e molhou ainda mais os pés, pois aqui a água era constante.

Passámos por vários rebanhos de ovelhas e cabras. Vimos muitas vacas, burros e cães. Fomos saudados por “olá” estranho que vinha de um corvo, exibido no quintal de uma casa, dentro de uma grande gaiola.

Depois passámos por Zimão e mais 2 ou 3 aldeias, até chegarmos a Parada de Aguiar, onde nos esperavam para voltarmos a casa e nos aquecermos com uma feijoada à transmontana. Mas a verdade é que não tivemos frio.















Daqui a um mês recomeçamos em Parada de Aguiar e vamos até Vidago.

terça-feira, 13 de novembro de 2012

Impressões II

Atravesso a ponte. Sou ultrapassada por um rapaz que lê um livro enquanto caminha e aparentemente não se arrepia com as alturas nem se assusta com os carros que passam por nós ruidosos.
Passam agora em sentido contrário 3 raparigas novinhas e uma delas destaca-se por ser mais pequena e por usar num dia frio como o de hoje roupas desasiado frescas que lhe deixam a barriga de fora. Saltita à volta das colegas e não se deixa ficar para trás.
Eu tropeço e tenho um arrepio ao ver o rio lá em baixo. Ou será do frio?

domingo, 11 de novembro de 2012

Impressões I

Chove muito. Sinto na cabeça o desconforto de 2 pingas que um buraco no guarda-chuva deixou passar. Olho com desconfiança o chão escorregadio e piso-o com muito respeito. Ainda assim, gosto de passear pela cidade.
Chove muito. Na entrada para uma loja de uma cadeia de clínicas dentárias que abriu falência, vejo dois corpos deitados. Um de homem e outro de mulher. Não se veem as caras, escondidas pelo esferovite e cartão que os circunda. Bem visíveis estão os pés e dois deles usam ténis iguais aos meus.
Ainda assim, gosto da chuva.

terça-feira, 21 de agosto de 2012

Túnel


Túnel –parte I

O caminho segue agora por um túnel. No chão, as tábuas que pisamos são mais redondas e escorregadias. Por cima de nós, insinuam-se morcegos e dentro de nós um alarido de asas a bater traz ao de cima todos os mitos e medos que estes animais representam. Nós somos pernas a andar mecanicamente, traque, traque, em cima dos carris da linha.

Demoramos mais tempo a passar o túnel do que teria demorado o comboio, mas talvez não muito mais. O tempo é de calma nesta terra marginal. A escuridão impõe-se e só é cortada pelas asas que batem não sabemos onde. O cheiro é virgem: ferro e interior da terra. A rocha é casa. Nós somos mais do que pernas a andar, somos mais do que olhos no chão para evitar os morcegos. Nós somos certeza: há luz e há fim. Há rio aqui ao lado, há amoras e sol tórrido. Estamos no túnel agora. Somos túnel, talvez, firmados por uma entrada e uma saída. E caminhamos com a determinação de quem sabe que o princípio e o fim se tocam.

Túnel –parte II

Levo auscultadores nos ouvidos, mas a música é totalmente abafada pelo barulho ensurdecedor dos carros. Este túnel é grande, mas está preparado para peões. Com passeio levantado e grades a separar as pessoas dos veículos. Há luzes até, mas não há nada que abafe esta loucura em movimento.

Este túnel é só uma passagem e eu sou uma escolha que me trouxe até ele. Este túnel cheira a fumo, a óleo e a gasolina. Cheira a mijo. Tem pessoas, muitas. E tem-me a mim que quis atravessá-lo agora.

Aqui é cidade e a confirmá-lo está o arrumador sujo que no fim da travessia conta as moedas que depois coloca em bolsos rotos.

Cai-me uma gota de água e quase podia apostar que essa gotinha veio de longe e já esteve em túneis com morcegos e linhas de comboio.

sexta-feira, 10 de agosto de 2012

mapa

Ontem deram-me um mapa por acaso, ou melhor, eu é que pedi o mapa. Estavam duas pessoas na rua a distribuir publicidade, devidamente identificadas com a camisola da empresa que os recrutou por uns tostões. Embora visse que eles se dirigiam especialmente aos turistas, fiz questão de me desviar deles porque não gosto de pegar em papéis que têm como destino o próximo caixote do lixo. Mas, durante a manobra de contorno, apercebi-me que eles estavam a oferecer mapas da cidade e então fiz questão de pedir um porque dá sempre jeito.
Umas ruas depois disso, cruzei-me com uma senhora que me perguntou onde era a rua 31 de Janeiro. - Hum, gostava de a ajudar, mas também não sei... Talvez... - e foi então que me lembrei que tinha um mapa da cidade, em menos de nada identifiquei a rua e esclareci a senhora. Senti-me feliz pela missão cumprida!
Umas hora mais tarde, estava a acabar de almoçar no parque quando me apercebi que um turista se dirijia a mim, em cima da sua bicicleta. Queria saber como se ia para a margem do rio.
- Bem, para o rio é fácil, mas é preciso ver os sentidos das ruas... Ora, vamos lá ver num mapa que tenho aqui...
E dei comigo a pensar que, só por causa desses dois encontros, valeu a pena ter pedido o mapa.