Atravesso a ponte. Sou ultrapassada por um rapaz que lê um livro enquanto caminha e aparentemente não se arrepia com as alturas nem se assusta com os carros que passam por nós ruidosos.
Passam agora em sentido contrário 3 raparigas novinhas e uma delas destaca-se por ser mais pequena e por usar num dia frio como o de hoje roupas desasiado frescas que lhe deixam a barriga de fora. Saltita à volta das colegas e não se deixa ficar para trás.
Eu tropeço e tenho um arrepio ao ver o rio lá em baixo. Ou será do frio?
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terça-feira, 13 de novembro de 2012
domingo, 11 de novembro de 2012
Impressões I
Chove muito. Sinto na cabeça o desconforto de 2 pingas que um buraco no guarda-chuva deixou passar. Olho com desconfiança o chão escorregadio e piso-o com muito respeito. Ainda assim, gosto de passear pela cidade.
Chove muito. Na entrada para uma loja de uma cadeia de clínicas dentárias que abriu falência, vejo dois corpos deitados. Um de homem e outro de mulher. Não se veem as caras, escondidas pelo esferovite e cartão que os circunda. Bem visíveis estão os pés e dois deles usam ténis iguais aos meus.
Ainda assim, gosto da chuva.
Chove muito. Na entrada para uma loja de uma cadeia de clínicas dentárias que abriu falência, vejo dois corpos deitados. Um de homem e outro de mulher. Não se veem as caras, escondidas pelo esferovite e cartão que os circunda. Bem visíveis estão os pés e dois deles usam ténis iguais aos meus.
Ainda assim, gosto da chuva.
terça-feira, 21 de agosto de 2012
Túnel
Túnel –parte I
O caminho segue agora por um
túnel. No chão, as tábuas que pisamos são mais redondas e escorregadias. Por
cima de nós, insinuam-se morcegos e dentro de nós um alarido de asas a bater
traz ao de cima todos os mitos e medos que estes animais representam. Nós somos
pernas a andar mecanicamente, traque, traque, em cima dos carris da linha.
Demoramos mais tempo a passar o
túnel do que teria demorado o comboio, mas talvez não muito mais. O tempo é de
calma nesta terra marginal. A escuridão impõe-se e só é cortada pelas asas que
batem não sabemos onde. O cheiro é virgem: ferro e interior da terra. A rocha é
casa. Nós somos mais do que pernas a andar, somos mais do que olhos no chão
para evitar os morcegos. Nós somos certeza: há luz e há fim. Há rio aqui ao lado,
há amoras e sol tórrido. Estamos no túnel agora. Somos túnel, talvez, firmados
por uma entrada e uma saída. E caminhamos com a determinação de quem sabe que o
princípio e o fim se tocam.
Túnel –parte II
Levo auscultadores nos ouvidos,
mas a música é totalmente abafada pelo barulho ensurdecedor dos carros. Este
túnel é grande, mas está preparado para peões. Com passeio levantado e grades a
separar as pessoas dos veículos. Há luzes até, mas não há nada que abafe esta
loucura em movimento.
Este túnel é só uma passagem e eu
sou uma escolha que me trouxe até ele. Este túnel cheira a fumo, a óleo e a
gasolina. Cheira a mijo. Tem pessoas, muitas. E tem-me a mim que quis atravessá-lo
agora.
Aqui é cidade e a confirmá-lo
está o arrumador sujo que no fim da travessia conta as moedas que depois coloca
em bolsos rotos.
Cai-me uma gota de água e quase
podia apostar que essa gotinha veio de longe e já esteve em túneis com morcegos
e linhas de comboio.
sexta-feira, 10 de agosto de 2012
mapa
Ontem deram-me um mapa por acaso, ou melhor, eu é que pedi o mapa. Estavam duas pessoas na rua a distribuir publicidade, devidamente identificadas com a camisola da empresa que os recrutou por uns tostões. Embora visse que eles se dirigiam especialmente aos turistas, fiz questão de me desviar deles porque não gosto de pegar em papéis que têm como destino o próximo caixote do lixo. Mas, durante a manobra de contorno, apercebi-me que eles estavam a oferecer mapas da cidade e então fiz questão de pedir um porque dá sempre jeito.
Umas ruas depois disso, cruzei-me com uma senhora que me perguntou onde era a rua 31 de Janeiro. - Hum, gostava de a ajudar, mas também não sei... Talvez... - e foi então que me lembrei que tinha um mapa da cidade, em menos de nada identifiquei a rua e esclareci a senhora. Senti-me feliz pela missão cumprida!
Umas hora mais tarde, estava a acabar de almoçar no parque quando me apercebi que um turista se dirijia a mim, em cima da sua bicicleta. Queria saber como se ia para a margem do rio.
- Bem, para o rio é fácil, mas é preciso ver os sentidos das ruas... Ora, vamos lá ver num mapa que tenho aqui...
E dei comigo a pensar que, só por causa desses dois encontros, valeu a pena ter pedido o mapa.
sexta-feira, 20 de julho de 2012
O parque estava cheio de miúdos
O parque estava cheio de miúdos, talvez por ser
dia de feira ou então foi por terem começado as férias escolares. Um pai
ajudava uma criança muito pequena a subir para o escorrega. Às voltas pelo
recinto, atrás de um miúdo reguila, uma mulher muito nova exibia uma barriga
que já não lhe cabia naquela camisola que não fora concebida para grávidas.
Era a primeira vez que eu estava naquela cidade
retilínea, desenhada a régua a esquadro, onde as ruas não tinham nome, mas sim
uma ordem numérica.
Do lado de fora do parque, alguns pais ou avós
esperavam as crianças, vigiando-as distraidamente.
E foi então que se aproximou a menina, rodeada de
polémica. Da mão pequenina caía uma coleira. Ao verem-na aproximar-se, as crianças
que brincavam lá dentro começaram a correr para ela, gritando "um
coelho". Uma avó que até então se mantivera num plano ausente da cena
ganhou forma e feitio de senhora refinada. A echarpe clara aos ombros dava-lhe
solenidade ao nariz empinado e a mulher começou a dar ordens para dentro:
- Nem penses, Catarina, não te aproximas no
animal. Não, não, não! Volta lá para dentro. Ouviste? Não, nada disso!
A excitação das crianças crescia na mesma medida
que a indignação dos adultos aumentava.
- Ela vai matar o bicho -advertiam eles. - A
arrastar assim o animal com a corda presa ao pescoço...
A menina não aparentava ter mais de quatro anos,
mas avançava sozinha. Os adultos entreolhavam-se entre si para tentarem
perceber quem seria o acompanhante daquela criança, mas os poucos suspeitos que
eram apontados por raios de desconfiança que cresciam dos olhares vizinhos
rapidamente apresentavam provas da sua inocência aproximando-se ou falando com
a sua criança.
A menina vinha mesmo sozinha.
A sua pele era muito escura, contrastando com o
cabelo loiro muito embaraçado e cheio de nós. O que escurecia a pele era muita
sujidade e exposição ao sol, pois claramente aquela menina teria uma ela
branquinha se fosse filha ou neta das senhoras que agora lhe gritavam.
O dia era de sol, mas a menina suja empregava
umas botas de lã que lhe ficavam grandes e ela tinha de arrastar ao andar. O vestido
fino que a cobria cheirava a suor e lágrimas e as suas alças caíam-lhe pelos
ombros, obrigando-a a dar esticões no pescoço do coelho para, em movimentos
rápidos, compor o vestido.
Pelo meio da confusão geral, ela entrou no parque
e dirigiu-se a mim, oferecendo-me o coelho. Eu fiz cara de parva, atarantada
pelas frases revoltadas das outras mães que diziam que a culpa não era dela,
mas de quem a deixava fazer aquilo, e não aceitei.
A menina nunca falou e ninguém soube de que
nacionalidade ela era, nem como se chamava, nem onde tinha arranjado o seu
animal de estimação e muito menos quem eram os seus pais.
Algumas crianças mais velhas e mais militantes da
causa dos animais tentavam salvar o bicho, dissuadindo a menina de o puxar pelo
pescoço. Ela perdeu força e a dada altura já eram os outros que carregavam o
coelhinho, sentenciando que ele iria morrer em breve, enquanto os pais e avós
exigiam que colocassem aquele animal imundo no chão.
No meio de um grande rebuliço, a menina e o
coelho foram levados pelo grupo para junto de uma carrinha de feirantes
estacionada do outro lado da praça. O que aconteceu ali não se vislumbrou do
parque. A menina não se voltou a ver, mas os seus gritos ainda soam bem alto no
parque infantil, disformando a alegria que os baloiços prometem. A fazer coro,
apareceram algumas crianças mais velhas a chorar que o coelho tinha mesmo
morrido.
É que isto não se faz a um animal.
domingo, 29 de janeiro de 2012
História de amor
Se eu soubesse pintar, não sei que branco encontraria para
revelar a luz que esconde este mar, sufocado debaixo de tanta crepitação. O
branco enevoa também este momento que perdeu contornos, guardando só uma
essência de luz laranja que não nos deixa nunca esquecer o que vivemos a
seguir. Este mar é um reservatório profundo de calmaria, embora eu não o veja,
porque tu estás ao meu lado. Se eu pudesse algum dia contar a alguém de que cor
é o teu cabelo, talvez dissesse palavras de música, simples e profundas como os
teus olhos. De que cor são os teus olhos? Posso beijá-los? Posso beijar-te?
Estamos aqui os dois, só nós dois, em frente a esta praia
inteira de Abril, virgem ainda de gente. Estamos no carro, mas lá baixo há
gaivotas, praia, cães e surfistas e há aquele branco, muito branco a arder no
mar. Hoje não estão aqui os amigos do costume porque nós já aprendemos a ficar
em silêncio sozinhos. Talvez um dia eu aprenda a dizer uma palavra que tu
compreendas e tu me beijes de seguida. Talvez se eu aprender a dizer a cor do
teu cabelo… Como se explica o branco? Gosto de estar aqui em silêncio contigo,
mas também gostava muito de dizer alguma coisa que nos deixasse agora muito
juntinhos.
Lembras-te do dia em que nos conhecemos? Estávamos sentados no autocarro, lá fora
chovia muito e nós, talvez envolvidos pelo conforto de sabermos que uns
centímetros de vidro nos mantinham a seco, estávamos soltos, olhámos um para um
outro e sorrimos, depois conversámos e depois… inventámos sempre novos depois.
Talvez não saibas, mas eu sentei-me ao pé de ti porque quando te vi fiquei como
que ofuscado, como se te vestisses com um espelho que irradiava luz
directamente para mim para me cegar... E tu agora aqui, assim à minha frente,
em silêncio… gostava de te beijar! Naquele dia, há alguns meses atrás, os
nossos joelhos tocaram-se e nós sabíamos que não era casual, mas não podíamos
assumir ainda que a nossa vontade eram cavalos desvairados a saltar vedações
pelos campos fora, sempre à procura de novos horizontes. Mesmo agora, neste
momento tão nosso, estamos aqui a domar animais ferozes e acalmá-los com vozes
suaves.
Sinto-me embalado pelo mar e pelo teu cheiro que dá alma a
este carro. A primeira vez que foste a minha casa parecias uma cliente e eu um
vendedor imobiliário, tal era a nossa rigidez e acanhamento. Éramos quase
vizinhos, mas nunca nos tínhamos cruzado nem frequentado as mesmas escolas.
Quando andava na escola, desejava com todas as minhas forças ser igual aos
outros e ter montes de miúdas atrás de mim. Agora sei que o passado perde valor
perante este momento em que estás aqui comigo, é como se sempre te tivesse tido
ou como se sempre te tivesse esperado. Juro que é hoje que te beijo, é o tudo
ou nada! Tanto tempo à espera deste momento, a aprender a estar contigo sem
dizermos nada, mas hoje preciso de mais, quero um beijo. Será que to devia
pedir ou fico só aqui assim, sem fazer nada? Parece-me que o mar já não é tão
branco… a praia ainda está lá, mas nós nunca a vimos, porque estamos os dois
aqui no carro.
Nesse dia, a minha mãe estava a ser simpática e eu a queixar-me
dela assim que saiu e tu a lamberes a ferida de não teres uma mãe. Desculpa não
ter visto a tua dor, estava muito ocupado com o meu embaraço e disse coisas só
por dizer para cobrir com terra o mais rápido que pudesse aquele buraco fundo
que era estar contigo sozinho em casa e querer fazer amor contigo. Não sei em
que altura é que te vi chorar pela primeira vez, talvez tenha sido na festa de
anos do meu priminho Joel, não sei bem, mas sei que nessa altura te compreendi
profundamente e senti o poço de morte em
que se tornara o teu peito, onde tu conduzias como louca para fugir àquela
negridão de não ter mãe.
Tive medo de não saber falar contigo, de não perceberes que
eu te conseguia compreender, mesmo passando a vida a dizer coisas pela boca
fora sobre a minha mãe. Agora já percebi há muito tempo que não preciso de
falar, sei que nos encontrámos um momento antes das palavras se designarem umas
às outras. Mas será que nos entenderemos mesmo quando nos beijarmos? É incrível
como tu consegues falar sem parar sem te tornares chata e depois podes ficar
assim, como agora, a encher o espaço com a tua presença, sem qualquer palavra.
Que mais coisas tens para me contar? Já sei que entraste para a universidade no
mesmo ano que eu, que frequentamos o mesmo supermercado, mas tu fazes as
compras para ti e para a família todos os Sábados de manhã e eu vou só de vez
em quando fazer recados à minha mãe. Sei tanta coisa sobre ti que nunca mais
acabaria de pensar em tudo… só não sei a que sabem os teus lábios…
E o beijo aconteceu! O beijo! Tu e eu! E a praia a dormir lá
em baixo e o mar que não sei que cor tem, nem sei se é dia ou noite nem nada,
nada… porque nos beijámos! E o abraço chegou também!
E foi então que tu disseste a palavra que se eu pudesse
traduzir seria “futuro”! Na verdade, tu só me beijaste de novo, acho que não
disseste nada, porque nos abraçámos e beijámos muito. E eu comecei então a
fazer-te promessas, havemos de acabar o curso e benzer as pastas juntos,
havemos de comprar roupa de gala e ir juntos a uma ópera no S. Carlos, havemos
de ter um carro nosso e viajar tanto que nem precisaremos de uma casa. Queres
ser minha namorada?
Um dia havemos de descer juntos as escadas do nosso bairro a
correr, vestidos de noivos e vamos ter o casamento mais maluco que os nossos
amigos alguma vez viram. Quem me dera que esse dia fosse hoje… mas este dia já
é muito grande, nem sei se este dia é ainda o mesmo dia, este dia em que te
beijei, em que nos beijámos. Hoje foi uma vitória tão grande, parece quase que
conseguiria explicar a toda a gente como me sinto quando te vejo e contemplo a
tua cor de cabelo! Parece que a tua beleza é concreta e fácil de explicar.
Gostava que a tua vida fosse mais fácil, embora tu não te
queixes, é certo, mas não deve ser fácil teres de aturar as loucuras do teu
irmão e a indiferença do teu pai. Vou confessar-te, não me sinto nada
confortável quando estou com eles: o teu irmão a ouvir a música nas alturas e o
teu pai a fazer de conta que não ouve. Ele será surdo? E tu a seres mãe deles
quando tudo o que precisavas era de um colo para ti. Não posso nem te quero
prometer que te dou o amor que a tua mãe te daria, mas se o amor é todo o
mesmo, então podes crer que o que te vou dar é um perfume muito bom da tua mãe.
Para já, vou mandar uma mensagem a todos os nossos amigos e
convidá-los a irem ter comigo amanhã ao café, vão ter cá uma surpresa quando
nos virem de mãos dadas. Bem, eles até
já nos viram de mãos dadas, ainda há pouco tempo quando fomos ao concerto da
Katie Melua íamos bem agarradinhos, com a desculpa que era para não nos
perdermos no meio da multidão. Mas eles perceberão logo que já não somos só
amigos inseparáveis, hão-de reparar na forma natural como nos tocamos e, se não
perceberem, também não vou demorar muito tempo até lhes contar. Saberão que
este beijo é real. Mas não poderão saber tudo o que eu sei porque este beijo me
conta.
E este beijo não sabe ainda que teremos um dia de chorar,
não compreende que teremos um dia que discutir, não percebe que teremos de nos
esquecer deste momento e recomeçar de novo. Este beijo não pode imaginar que
haverá outros primeiros beijos. Será que saberemos esperar por eles como
esperámos por este?
terça-feira, 17 de janeiro de 2012
Às vezes, basta uma música para nos fazer percorrer em instantes a história da nossa vida, encontrando pontos que se tocam e se cruzam, como aqueles fios finos, tão finos, que constituem os nossos tecidos e que não se vêem, mas são bases.
Às vezes, quando conseguimos ver assim a nossa vida de relance, percebemos que há um foco de luz lá no meio que anula o mal que também existe e nos faz peceber que somos maiores porque ainda conseguimos escutar com lágrimas nos olhos uma música.
Às vezes, quando conseguimos ver assim a nossa vida de relance, percebemos que há um foco de luz lá no meio que anula o mal que também existe e nos faz peceber que somos maiores porque ainda conseguimos escutar com lágrimas nos olhos uma música.
segunda-feira, 2 de janeiro de 2012
novo
Hoje capto no ar um cheiro muito concreto a livros ainda por folhear e lápis e borrachas prontos a criar.
Apetece-me tanto estrear a vida!
Apetece-me tanto estrear a vida!
segunda-feira, 12 de dezembro de 2011
Arrepio
O cheiro de um crime é horrível, mesmo que tenha acontecido há 20 anos, ainda que nessa altura nem tivéssemos nascido ainda.
A Tatyana não só não tinha ainda vindo a este mundo, como ainda por cima é de bem longe, mas tem os olhos embaciados de espanto e a pele inquieta de tremor.
Descobriu que a barraca que ela e a família reconstruíram debaxo da linha do comboio e que tinha sido em tempos -já depois de ter abrigado o assassinato- destruída por máquinas retroescavadoras foi palco de um episódio atroz.
E soube disso pela televisão, mas aquele odor a sangue agora persegue-a e dá-lhe náuseas. Ela sabe que o mal existe e é concreto, tão real como o barulho do comboio que passa de 5 em 5 minutos e abafa os gritos que aquela mulher estrangulada deve ter vomitado.
A Tatyana não só não tinha ainda vindo a este mundo, como ainda por cima é de bem longe, mas tem os olhos embaciados de espanto e a pele inquieta de tremor.
Descobriu que a barraca que ela e a família reconstruíram debaxo da linha do comboio e que tinha sido em tempos -já depois de ter abrigado o assassinato- destruída por máquinas retroescavadoras foi palco de um episódio atroz.
E soube disso pela televisão, mas aquele odor a sangue agora persegue-a e dá-lhe náuseas. Ela sabe que o mal existe e é concreto, tão real como o barulho do comboio que passa de 5 em 5 minutos e abafa os gritos que aquela mulher estrangulada deve ter vomitado.
domingo, 13 de novembro de 2011
Os olhos da Tatyana
Neste país as pessoas parecem mais altas do que na Roménia,
mas é por as ver de baixo para cima que acho isso. Sento-me no passeio, encostada
a um parquímetro, em cima de um cartão que não evita que sinta o frio e a
humidade do chão. Seguro uma garrafa de plástico cortada com 2 moedas dentro
que vou abanando para lembrar quem passa de me dar uma esmola, como quem agita
uma roca para atrair a atenção de um bebé. Hoje não trouxe o meu rico menino,
está muito constipado, ficou com a minha prima. De vez em quando dou uma
espreitadela para os lados da barraca, embora não a veja daqui, mas se não vem
lá ninguém a descer a encosta é porque deve estar tudo bem.
Se estiver bom tempo, prefiro ficar na rua, não há
seguranças a chatear-me e há mais distracções, além de não ficar tão escondida
pelas multidões. Aqui há muitos prédios, alguns bem impressionantes, por mais
que tente puxar pela cabeça não consigo ter ideia do que toda esta gente faz lá
dentro. Sei que vão sempre com muita pressa e que é com o que ganham lá que se
vestem bem e comem tudo o que querem, mas o que fazem não faço ideia.
Compreendo o trabalho do restaurante e das cafetarias aqui da rua e também sei
o que tem de fazer o chinês da loja de roupa, mas nos andares superiores não
consigo imaginar. Habituei-me a ver estas pessoas e estas ruas e estas lojas como
paisagem, fazem parte de outra realidade à qual eu não pertenço e por isso acabo
por não as ver, nem aos seus carros, nem aos sacos e bolsas que carregam. Vejo,
isso sim, os polícias, os varredores de rua, os carteiros e os taxistas, que me
insultam, desprezam e expulsam da rua.
Ganhei 5,15€ hoje, vou à loja do chinês comprar massa para o
jantar, passo no supermercado e compro vinho para o marido e com o que me
restar hei-de ir à farmácia comprar alguma coisa para a tosse do menino. Depois
atravesso a linha, subo a encosta da estrada, contorno a “horta” do Ti Manel a quem comprarei cenouras e
chegarei à nossa barraca. Espero que o Ronan esteja melhor. Hei-me abraçá-lo e
dar-lhe mama.
terça-feira, 8 de novembro de 2011
Ternura II
Sento-me à sua frente no metro e não fico indiferente ao ramosque leva na mão com a mesma naturalidade com que seguraria uma bengala ou um guarda-chuva.
São duas orquídeas em tons neutros, atadas uma à outra por uma linha branca de costura.
terça-feira, 25 de outubro de 2011
Ternura
Rapidamente me aproximei dos velhinhos e quando os
ultrapassei já eles estavam junto ao seu carro. Ele dentro a tentar
abrir a porta dela que do lado de fora resmungava que não conseguia entrar. Ele
esticava-se todo e ia puxando o manípulo, barafustando por seu lado. Quebraram
qualquer coisa naquele momento não na porta, nem no carro, mas no cenário que
tinham protagonizado. Partiram o vidro da moldura engalanada de quadro de museu e
saltaram para a vida concreta, fraca, vil, mas linda ainda assim.
E eu segui, com um sorriso nos lábios, divertida com a
rabugice deles.
terça-feira, 27 de setembro de 2011
Pureza
Às vezes também brincava com as primas mais velhas, mas elas só gostavam de
bonecas e de conjuntos de chá e de café de brincar que nunca sujavam e onde ela
não podia colocar o excelente café de terra que fazia porque os brinquedos das
primas nunca iam para a rua.
Era por isso que ela se juntava mais com o cenourinha, um rapazinho
apelidado pelos outros de “atrasado”, nome que ela nunca compreendeu bem porque
ele era sempre o primeiro a aparecer na rua de manhã com os beiços ainda sujos
de chocolate e com um sorriso rasgado quando a mãe o levava para brincar com os
outros meninos que à medida que iam aparecendo faziam grupos,equipas, planeavam
jogos sem nunca o incluírem. Sabia que também não era por ele chegar atrasado à
escola, mas que era por causa da escola que ele tinha aquela fama. Embora
fossem da mesma idade, ele não passava do primeiro ano. Gostava dele porque
tinha a doçura das meninas, mas mais paciência do que elas.
Quando passava o autocarro na rua deles, costumavam parar de brincar para
verem o que as pessoas traziam da cidade: instrumentos musicais de plástico,
sacos de fruta, árvores para replantar, roupas novas, doces, chapéus da moda...
Às vezes, ofereciam-se para ajudarem alguma tia ou vizinha a carregarem os
sacos, mas desta vez não conheciam ninguém e mantiveram-se encostados a um cano
de água a tentar compreender a voz de trovão que lhes falava lá de dentro. E a
menina viu então junto à hera do muro um frasquinho pequeno com água lá dentro.
Desta vez, achou mais graça ao frasco em forma de rosa do que ao líquido e
apanhou-o fascinada. O cenourinha olhava-a com olhos grandes e lábio inferior
relaxado. Nunca tinham visto uma garrafa tão bonita e decidiram deitar fora a
água para ver como ficaria cheia de líquidos de outra cor. Deram então conta
que não era água, mas sim um perfume e arrependeram-se de o ter desperdiçado,
mas nessa altura já os seus sapatos e meias estavam salpicados e o frasco não
tinha nem mais uma gota e eles divertiram-se a fazer misturas de água com
pétalas, batido de folhas e cal que saía do muro.
Nesse dia acabou o Verão e os sapatos foram arrumados. Muitas voltas o
mundo deu até que, num dia de Outono, a menina já mulher levou a sua filha à
escola das crianças agora chamadas “especiais”, ela continuava sem entender a
expressão porque achava que só por serem crianças todas eram especiais. A
menina levava nos pés os sapatos que a mãe da mulher arrumara há tanto tempo
atrás. Quando chegaram foram conhecer os ateliers criativos e a mãe da menina
viu numa prateleira da sala de trabalhos manuais um frasco em forma de rosa com
areia colorida lá dentro que reconheceu e lembrou-se do perfume que ainda
estava nos sapatos da menina e a transportava para momentos felizes. Olhou
melhor para o formador, era o cenourinha. Foi falar com ele e contou-lhe tanta
coisa, descrevendo com todos os pormenores a gravidez da filha e a origem da
deficiência dela. Ele não percebeu nada, mas mostrou-lhe um sorriso tão doce e
puro que lhe pareceu água e ela sentiu-se em casa. E começou a entender porque
é que a sua filha era especial.
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