Um amolador tinha a sua bicicleta estacionada num canto
daquela rua pedonal, junto a um caixote do lixo. Apanhava guarda-chuvas
estragados e arrumava-os criteriosamente numa rede instalada junto ao quadro da
bicicleta.Etiquetas
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quinta-feira, 24 de janeiro de 2013
Amolador
Um amolador tinha a sua bicicleta estacionada num canto
daquela rua pedonal, junto a um caixote do lixo. Apanhava guarda-chuvas
estragados e arrumava-os criteriosamente numa rede instalada junto ao quadro da
bicicleta.terça-feira, 13 de novembro de 2012
Impressões II
Passam agora em sentido contrário 3 raparigas novinhas e uma delas destaca-se por ser mais pequena e por usar num dia frio como o de hoje roupas desasiado frescas que lhe deixam a barriga de fora. Saltita à volta das colegas e não se deixa ficar para trás.
Eu tropeço e tenho um arrepio ao ver o rio lá em baixo. Ou será do frio?
domingo, 11 de novembro de 2012
Impressões I
Chove muito. Na entrada para uma loja de uma cadeia de clínicas dentárias que abriu falência, vejo dois corpos deitados. Um de homem e outro de mulher. Não se veem as caras, escondidas pelo esferovite e cartão que os circunda. Bem visíveis estão os pés e dois deles usam ténis iguais aos meus.
Ainda assim, gosto da chuva.
terça-feira, 21 de agosto de 2012
Túnel
Demoramos mais tempo a passar o
túnel do que teria demorado o comboio, mas talvez não muito mais. O tempo é de
calma nesta terra marginal. A escuridão impõe-se e só é cortada pelas asas que
batem não sabemos onde. O cheiro é virgem: ferro e interior da terra. A rocha é
casa. Nós somos mais do que pernas a andar, somos mais do que olhos no chão
para evitar os morcegos. Nós somos certeza: há luz e há fim. Há rio aqui ao lado,
há amoras e sol tórrido. Estamos no túnel agora. Somos túnel, talvez, firmados
por uma entrada e uma saída. E caminhamos com a determinação de quem sabe que o
princípio e o fim se tocam.sexta-feira, 10 de agosto de 2012
mapa
Ontem deram-me um mapa por acaso, ou melhor, eu é que pedi o mapa. Estavam duas pessoas na rua a distribuir publicidade, devidamente identificadas com a camisola da empresa que os recrutou por uns tostões. Embora visse que eles se dirigiam especialmente aos turistas, fiz questão de me desviar deles porque não gosto de pegar em papéis que têm como destino o próximo caixote do lixo. Mas, durante a manobra de contorno, apercebi-me que eles estavam a oferecer mapas da cidade e então fiz questão de pedir um porque dá sempre jeito.sexta-feira, 20 de julho de 2012
O parque estava cheio de miúdos
quarta-feira, 9 de maio de 2012
Lavagem
domingo, 29 de janeiro de 2012
História de amor
segunda-feira, 12 de dezembro de 2011
Arrepio
A Tatyana não só não tinha ainda vindo a este mundo, como ainda por cima é de bem longe, mas tem os olhos embaciados de espanto e a pele inquieta de tremor.
Descobriu que a barraca que ela e a família reconstruíram debaxo da linha do comboio e que tinha sido em tempos -já depois de ter abrigado o assassinato- destruída por máquinas retroescavadoras foi palco de um episódio atroz.
E soube disso pela televisão, mas aquele odor a sangue agora persegue-a e dá-lhe náuseas. Ela sabe que o mal existe e é concreto, tão real como o barulho do comboio que passa de 5 em 5 minutos e abafa os gritos que aquela mulher estrangulada deve ter vomitado.
domingo, 13 de novembro de 2011
Os olhos da Tatyana
terça-feira, 8 de novembro de 2011
Ternura II
Sento-me à sua frente no metro e não fico indiferente ao ramosque leva na mão com a mesma naturalidade com que seguraria uma bengala ou um guarda-chuva.
São duas orquídeas em tons neutros, atadas uma à outra por uma linha branca de costura.
terça-feira, 25 de outubro de 2011
Ternura
terça-feira, 27 de setembro de 2011
Pureza
sexta-feira, 23 de setembro de 2011
Maternidade
Tão improvável como ter nascido neste sítio foi ter chegadocá agora mais de 30 anos depois. A caminhar ao acaso pela cidade: avirar à direita ou à esquerda ao calhas conforme o lado da rua onde bate o sol,arrepiozinho de prazer; a parar para ver um pormenor da rua que fotografo: aolado da tabuleta oficial “Rua da Torrinha”, outra indicação pintada na paredeelucida “Rua Júlia Nogueira, ínsígne mestre das sirigaitas”; a desviar-me de umabelhão que plana à altura do meu nariz; mais à frente vejo do lado direito darua um palácio imponente que parece ter sido transformado numa discoteca eimpressiono-me com o facto de os vidros frágeis e velhos estarem todosintactos… e depois “Maternidade Júlio Dinis”. Mas foi aqui que eu nasci!! E averdade é que nunca mais cá tinha voltado. Quis entrar, o sítio onde nascemosafinal será sempre a nossa casa.
quinta-feira, 23 de junho de 2011
Movimento
Cheguei à porta da Loja do Cidadão cedo demais, já não valia a pena ir para a fila que dava a volta ao quarteirão, mas também não podia entrar sem deixar escoar, gota a gota, aquela gente toda lá para dentro. Fiquei por isso parada no meio da rua, sentindo a pulsão da multidão a girar à minha volta, organizadamente. Eu, de auscultadores nos ouvidos, abstraída, serena, em paz, a rezar, a ser o centro do mundo. À minha volta, pessoas, pessoas, a serem cenário, enquadramento, a darem movimento àquele momento, a não serem pessoas porque nem as conheço, nem as ouço, nem as vejo.
Eu e o meu egoísmo, mas a paz daquela música, daquela abstracção, a chamar-me a dar rostos às pessoas. São só estranhos, nunca poderei contar as suas histórias, mas fizeram parte da minha história e essa se quisesse podia contar.
Fico assim mais uns minutos e daqui a nada na minha cabeça muitas coisas darão forma aos meus pensamentos: fazer isto, falar daquilo, não me esquecer de, despachar-me. E mais logo comprar, arrumar, avisar, telefonar.
Mas naquele momento era eu, ali, sem pensar.
E vieram outros dias: tempestades interiores, dúvidas, medo e paixão. Vieram outros momentos de auscultadores nos ouvidos, a mesma música até. E aquilo que eu sou a espreitar aqui e ali. Eu a escrever-me sem saber a minha história. Mas ficará aquele momento, aquela frase minha, até a esquecer ou a riscar.
sábado, 26 de fevereiro de 2011
Estórias
Encontro-a por acaso na rua depois de algum tempo sem a ver no salão. A Marlene está gira como sempre: usa roupa curta e apertada dos últimos saldos das lojas de roupa para massas do shopping e está maquilhada demais para o meu gosto. Mas muito ela, toda equilibrada em cima dos seus 21 anos, amparada ainda assim no braço do namorado, não vá um salto deixá-la mal.
Sorri quando me vê e pára para cumprimentar. Não posso deixar de reparar que tem a blusa molhada, uma gotinha no peito. Comento isso.
- Ah!! Que chatice! Estes coisos não prestam, tanto faz pô-los como não. Mas prontos. Olhe, doutora, temos de ir, estamos com pressa.
Percebi depois quando fui arranjar o cabelo.
A rapariga era o tema de conversa preferido e o principal alvo da pena e espanto do mulherio. Ia visitar os dois gémeos que tinha tido há 15 dias atrás e estavam numa incubadora por terem nascido antes do tempo.
Lembrei-me das conversas dela acerca dos reality shows e telenovelas na tv, das saídas à noite e dos mexericos do cabeleireiro e pensei: “será que nas revistas que ela lia aprendeu alguma coisa sobre bebés?” Mas ela só lia os títulos e algum parágrafo mais gordo, de resto o que a seduzia mesmo eram as imagens, as roupas, os penteados e a elegância ou falta dela...
quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011
Água
Estás grávida, perdes uma manhã para mostrar uns papeis a uma médica, para ela em menos de 5 minutos te despachar com palavras à deriva que te perturbam. Isto não sem antes teres pedido especial favor para seres atendida depois de teres guardado a sua porta horas a fio em pé com o barrigão e ainda teres ouvido umas bocas de uns velhotes por estares a passar à sua frente.
Sais para ir à tua vida com os olhos húmidos e um qualquer combate de kickboxing ali para os lados do peito entre o arrogante alívio por teres saído dali e o sempre vencedor medo do desconhecido.
Ainda não tínhamos dito que chove e que vais em passo rápido, queres te afastar dali, apanhar o metro, esquecer. E é então que passa um carro e com toda a perícia esvazia uma poça de água da estrada completamente para cima de ti. Choras.
sábado, 25 de setembro de 2010
Amor

Tivemos um dia perfeito, como se fôssemos protagonistas de um filme, mas sem algodão doce nem feira popular. Sem pôr-do-sol, praia dourada, lua cheia ou jardim encantado. Sem música arrebatadora nem gestos de romantismo. Como cenário, ruas escavacadas, uma casa de banho com o chão enlameado, uma sandes comida a correr ao almoço, o barulho ensurdecedor de um autocarro num túnel.
domingo, 19 de setembro de 2010
Onde ficam as Escadinhas das Portas do Mar?

Não seguimos em frente, passamos por baixo de um arco que nos leva a uma ruela escura que não sabemos se tem saída e que deve cheirar a mijo, mas não, cheira a caril de um restaurante indiano. Aqui a renda é com certeza mais barata do que na rua principal onde todos os turistas confluem.
Paramos numa padaria para comprar uma garrafa de água e depois sentamo-nos numas escadinhas a observar. Um gato fareja aqui e ali e um homem que passa diz para a menina que brinca na varanda do primeiro andar em frente à padaria que o gato está grávido. Ouvem-se risos. Noutra varanda da casa, esta virada para nós, a mãe da menina fala ao telemóvel e reclama com uma operadora de call centre.
Em frente a nós, dois estudantes vestidos de preto e com pronúncia do Norte insultam o cabrão do homem que recebeu o dinheiro da renda e agora não põe a máquina de lavar roupa. Contornam-nos, sobem as escadas e batem com a porta.
Um homem consegue arranjar espaço naquela ruinha para estacionar uma carrinha enorme entre nós e a padaria, vai fazer contas com a senhora da padaria e depois sai com um saco de plástico daqueles do pão meio cheio de moedas. Vai-se embora.
Passa uma mulher que não tem aspecto de turista com um mapa de um guia turístico na mão, enquanto um homem bem vestido de fato continua a falar ao telemóvel na rua sem se saber onde pertence.
Agora começa a cheirar a pescada e batatas cozidas, mas o caril é mais forte. E ainda cabe mais um carro.
No meio das casas há uma chaminé de tijolo laranja de uma fábrica.
O gato grávido afinal é chamado pela menina filha da mulher que reclama ao telemóvel de Maria. A senhora da padaria limpa o balcão para fechar. Passa uma família de um português, uma espanhola e duas meninas pequeninas cada uma com uma bicicleta e chamam Inês à menina que chamou o gato de Maria.
O gato ronrona a um cão em miniatura que veio à rua passear ou será que é o cão que rosna ao gato grávido?
A mulher acabou a conversa e desliga o telemóvel. A padaria já tem as luzes apagadas.
Há outro cão que espreita na janela em frente à varanda da Inês e recebe festas enquanto a dona estende um tapete.
Dois estrangeiros perguntam-nos como se vai “para riba?” e nós não sabemos, mas um homem que chega com sacos de supermercado logo explica que têm de ir pela estrada. O homem entra no prédio onde vive o cão que recebe festas e volta a sair, dizendo para a mulher do telemóvel “já viste? Meteram mais um carro naquele cantinho. Se há uma emergência estou para ver como é que é!”. Vai-se embora e a mulher manda o marido ligar “agora!” ao Hugo a ver se eles querem almoçar no Domingo. A mulher vem novamente falar ao telemóvel para a varanda, pergunta se preferem uma grelhada mista ou o bacalhau que ali é muito bom e sai mais barato.
Ouve-se o arrulhar de um pombo, começa a ficar mais escuro e há um brisa fresca no ar, mas não cheira mal aqui. Chega até nós o som de talheres a bater nos pratos. Em volta do letreiro do restaurante indiano piscam luzes de Natal.