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quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

Amolador


Hoje de manhã, com o sol a lamber as ruas e a dar brilho aos cabelos, as pessoas cheiravam todas bem: shampôs de cascatas tropicais e aromas artificiais combinavam bem com as ruas lavadas pela chuva intensa dos últimos dias.

Um amolador tinha a sua bicicleta estacionada num canto daquela rua pedonal, junto a um caixote do lixo. Apanhava guarda-chuvas estragados e arrumava-os criteriosamente numa rede instalada junto ao quadro da bicicleta.

Ali, ao sol, ele fazia o rescaldo dos últimos dias, pedalando para reparar varetas partidas. Sem grande tecnologia, sem ocupar muito espaço, sem grande publicidade (além do som de uma gaita a anunciá-lo), ele trazia à rua mais esperança do que o próprio sol.
E a chuva que vier já não o molhará nesta manhã clara em que ele saiu à rua e ressuscitou destroços.

terça-feira, 13 de novembro de 2012

Impressões II

Atravesso a ponte. Sou ultrapassada por um rapaz que lê um livro enquanto caminha e aparentemente não se arrepia com as alturas nem se assusta com os carros que passam por nós ruidosos.
Passam agora em sentido contrário 3 raparigas novinhas e uma delas destaca-se por ser mais pequena e por usar num dia frio como o de hoje roupas desasiado frescas que lhe deixam a barriga de fora. Saltita à volta das colegas e não se deixa ficar para trás.
Eu tropeço e tenho um arrepio ao ver o rio lá em baixo. Ou será do frio?

domingo, 11 de novembro de 2012

Impressões I

Chove muito. Sinto na cabeça o desconforto de 2 pingas que um buraco no guarda-chuva deixou passar. Olho com desconfiança o chão escorregadio e piso-o com muito respeito. Ainda assim, gosto de passear pela cidade.
Chove muito. Na entrada para uma loja de uma cadeia de clínicas dentárias que abriu falência, vejo dois corpos deitados. Um de homem e outro de mulher. Não se veem as caras, escondidas pelo esferovite e cartão que os circunda. Bem visíveis estão os pés e dois deles usam ténis iguais aos meus.
Ainda assim, gosto da chuva.

terça-feira, 21 de agosto de 2012

Túnel


Túnel –parte I

O caminho segue agora por um túnel. No chão, as tábuas que pisamos são mais redondas e escorregadias. Por cima de nós, insinuam-se morcegos e dentro de nós um alarido de asas a bater traz ao de cima todos os mitos e medos que estes animais representam. Nós somos pernas a andar mecanicamente, traque, traque, em cima dos carris da linha.

Demoramos mais tempo a passar o túnel do que teria demorado o comboio, mas talvez não muito mais. O tempo é de calma nesta terra marginal. A escuridão impõe-se e só é cortada pelas asas que batem não sabemos onde. O cheiro é virgem: ferro e interior da terra. A rocha é casa. Nós somos mais do que pernas a andar, somos mais do que olhos no chão para evitar os morcegos. Nós somos certeza: há luz e há fim. Há rio aqui ao lado, há amoras e sol tórrido. Estamos no túnel agora. Somos túnel, talvez, firmados por uma entrada e uma saída. E caminhamos com a determinação de quem sabe que o princípio e o fim se tocam.

Túnel –parte II

Levo auscultadores nos ouvidos, mas a música é totalmente abafada pelo barulho ensurdecedor dos carros. Este túnel é grande, mas está preparado para peões. Com passeio levantado e grades a separar as pessoas dos veículos. Há luzes até, mas não há nada que abafe esta loucura em movimento.

Este túnel é só uma passagem e eu sou uma escolha que me trouxe até ele. Este túnel cheira a fumo, a óleo e a gasolina. Cheira a mijo. Tem pessoas, muitas. E tem-me a mim que quis atravessá-lo agora.

Aqui é cidade e a confirmá-lo está o arrumador sujo que no fim da travessia conta as moedas que depois coloca em bolsos rotos.

Cai-me uma gota de água e quase podia apostar que essa gotinha veio de longe e já esteve em túneis com morcegos e linhas de comboio.

sexta-feira, 10 de agosto de 2012

mapa

Ontem deram-me um mapa por acaso, ou melhor, eu é que pedi o mapa. Estavam duas pessoas na rua a distribuir publicidade, devidamente identificadas com a camisola da empresa que os recrutou por uns tostões. Embora visse que eles se dirigiam especialmente aos turistas, fiz questão de me desviar deles porque não gosto de pegar em papéis que têm como destino o próximo caixote do lixo. Mas, durante a manobra de contorno, apercebi-me que eles estavam a oferecer mapas da cidade e então fiz questão de pedir um porque dá sempre jeito.
Umas ruas depois disso, cruzei-me com uma senhora que me perguntou onde era a rua 31 de Janeiro. - Hum, gostava de a ajudar, mas também não sei... Talvez... - e foi então que me lembrei que tinha um mapa da cidade, em menos de nada identifiquei a rua e esclareci a senhora. Senti-me feliz pela missão cumprida!
Umas hora mais tarde, estava a acabar de almoçar no parque quando me apercebi que um turista se dirijia a mim, em cima da sua bicicleta. Queria saber como se ia para a margem do rio.
- Bem, para o rio é fácil, mas é preciso ver os sentidos das ruas... Ora, vamos lá ver num mapa que tenho aqui...
E dei comigo a pensar que, só por causa desses dois encontros, valeu a pena ter pedido o mapa.

sexta-feira, 20 de julho de 2012

O parque estava cheio de miúdos

O parque estava cheio de miúdos, talvez por ser dia de feira ou então foi por terem começado as férias escolares. Um pai ajudava uma criança muito pequena a subir para o escorrega. Às voltas pelo recinto, atrás de um miúdo reguila, uma mulher muito nova exibia uma barriga que já não lhe cabia naquela camisola que não fora concebida para grávidas.

Era a primeira vez que eu estava naquela cidade retilínea, desenhada a régua a esquadro, onde as ruas não tinham nome, mas sim uma ordem numérica.

Do lado de fora do parque, alguns pais ou avós esperavam as crianças, vigiando-as distraidamente.

E foi então que se aproximou a menina, rodeada de polémica. Da mão pequenina caía uma coleira. Ao verem-na aproximar-se, as crianças que brincavam lá dentro começaram a correr para ela, gritando "um coelho". Uma avó que até então se mantivera num plano ausente da cena ganhou forma e feitio de senhora refinada. A echarpe clara aos ombros dava-lhe solenidade ao nariz empinado e a mulher começou a dar ordens para dentro:

- Nem penses, Catarina, não te aproximas no animal. Não, não, não! Volta lá para dentro. Ouviste? Não, nada disso!

A excitação das crianças crescia na mesma medida que a indignação dos adultos aumentava.

- Ela vai matar o bicho -advertiam eles. - A arrastar assim o animal com a corda presa ao pescoço...

A menina não aparentava ter mais de quatro anos, mas avançava sozinha. Os adultos entreolhavam-se entre si para tentarem perceber quem seria o acompanhante daquela criança, mas os poucos suspeitos que eram apontados por raios de desconfiança que cresciam dos olhares vizinhos rapidamente apresentavam provas da sua inocência aproximando-se ou falando com a sua criança.

A menina vinha mesmo sozinha.

A sua pele era muito escura, contrastando com o cabelo loiro muito embaraçado e cheio de nós. O que escurecia a pele era muita sujidade e exposição ao sol, pois claramente aquela menina teria uma ela branquinha se fosse filha ou neta das senhoras que agora lhe gritavam.

O dia era de sol, mas a menina suja empregava umas botas de lã que lhe ficavam grandes e ela tinha de arrastar ao andar. O vestido fino que a cobria cheirava a suor e lágrimas e as suas alças caíam-lhe pelos ombros, obrigando-a a dar esticões no pescoço do coelho para, em movimentos rápidos, compor o vestido.

Pelo meio da confusão geral, ela entrou no parque e dirigiu-se a mim, oferecendo-me o coelho. Eu fiz cara de parva, atarantada pelas frases revoltadas das outras mães que diziam que a culpa não era dela, mas de quem a deixava fazer aquilo, e não aceitei.

A menina nunca falou e ninguém soube de que nacionalidade ela era, nem como se chamava, nem onde tinha arranjado o seu animal de estimação e muito menos quem eram os seus pais.

Algumas crianças mais velhas e mais militantes da causa dos animais tentavam salvar o bicho, dissuadindo a menina de o puxar pelo pescoço. Ela perdeu força e a dada altura já eram os outros que carregavam o coelhinho, sentenciando que ele iria morrer em breve, enquanto os pais e avós exigiam que colocassem aquele animal imundo no chão.

No meio de um grande rebuliço, a menina e o coelho foram levados pelo grupo para junto de uma carrinha de feirantes estacionada do outro lado da praça. O que aconteceu ali não se vislumbrou do parque. A menina não se voltou a ver, mas os seus gritos ainda soam bem alto no parque infantil, disformando a alegria que os baloiços prometem. A fazer coro, apareceram algumas crianças mais velhas a chorar que o coelho tinha mesmo morrido.

É que isto não se faz a um animal.

quarta-feira, 9 de maio de 2012

Lavagem

Estes primeiros raios de sol vêm perfumar a cidade limpa pelas chuvas de um mês inteiro.
A cidade é percorrida, hoje como ontem, por uma varina que tem escamas de peixe na cara e as chinelas impregnadas de tripas de pescado. Mas hoje ela cheira melhor. Porque é penetrada por uma luz que ignora os podres e foca a beleza, a tradição e a ordem.
Numa rua desta cidade, eu vi uma placa com letras gravadas em baixo relevo, daquelas que enumeram os moradores de uma casa e se colam nas caixas de correio, que dizia: "se trouxer alguma coisa para Amélia Costa da casa 6, por favor toque à campainha". E esse objeto, lido à luz do sol, perdeu o bizarro e o ridículo e deu à cidade a graça das crianças, ou dos velhos, que são tão parecidos.
Esta cidade tem uma igreja onde eu nunca entrei e, quando hoje o tencionava fazer, fechou-me as portas, eu teria que adquirir bilhete para entrar. Preferi sentar-me aqui, à soleira, a aquecer ao sol. Este sol que me lava e me anuncia novas cidades dentro desta.

domingo, 29 de janeiro de 2012

História de amor

Se eu soubesse pintar, não sei que branco encontraria para revelar a luz que esconde este mar, sufocado debaixo de tanta crepitação. O branco enevoa também este momento que perdeu contornos, guardando só uma essência de luz laranja que não nos deixa nunca esquecer o que vivemos a seguir. Este mar é um reservatório profundo de calmaria, embora eu não o veja, porque tu estás ao meu lado. Se eu pudesse algum dia contar a alguém de que cor é o teu cabelo, talvez dissesse palavras de música, simples e profundas como os teus olhos. De que cor são os teus olhos? Posso beijá-los? Posso beijar-te?
Estamos aqui os dois, só nós dois, em frente a esta praia inteira de Abril, virgem ainda de gente. Estamos no carro, mas lá baixo há gaivotas, praia, cães e surfistas e há aquele branco, muito branco a arder no mar. Hoje não estão aqui os amigos do costume porque nós já aprendemos a ficar em silêncio sozinhos. Talvez um dia eu aprenda a dizer uma palavra que tu compreendas e tu me beijes de seguida. Talvez se eu aprender a dizer a cor do teu cabelo… Como se explica o branco? Gosto de estar aqui em silêncio contigo, mas também gostava muito de dizer alguma coisa que nos deixasse agora muito juntinhos.
Lembras-te do dia em que nos conhecemos?  Estávamos sentados no autocarro, lá fora chovia muito e nós, talvez envolvidos pelo conforto de sabermos que uns centímetros de vidro nos mantinham a seco, estávamos soltos, olhámos um para um outro e sorrimos, depois conversámos e depois… inventámos sempre novos depois. Talvez não saibas, mas eu sentei-me ao pé de ti porque quando te vi fiquei como que ofuscado, como se te vestisses com um espelho que irradiava luz directamente para mim para me cegar... E tu agora aqui, assim à minha frente, em silêncio… gostava de te beijar! Naquele dia, há alguns meses atrás, os nossos joelhos tocaram-se e nós sabíamos que não era casual, mas não podíamos assumir ainda que a nossa vontade eram cavalos desvairados a saltar vedações pelos campos fora, sempre à procura de novos horizontes. Mesmo agora, neste momento tão nosso, estamos aqui a domar animais ferozes e acalmá-los com vozes suaves.
Sinto-me embalado pelo mar e pelo teu cheiro que dá alma a este carro. A primeira vez que foste a minha casa parecias uma cliente e eu um vendedor imobiliário, tal era a nossa rigidez e acanhamento. Éramos quase vizinhos, mas nunca nos tínhamos cruzado nem frequentado as mesmas escolas. Quando andava na escola, desejava com todas as minhas forças ser igual aos outros e ter montes de miúdas atrás de mim. Agora sei que o passado perde valor perante este momento em que estás aqui comigo, é como se sempre te tivesse tido ou como se sempre te tivesse esperado. Juro que é hoje que te beijo, é o tudo ou nada! Tanto tempo à espera deste momento, a aprender a estar contigo sem dizermos nada, mas hoje preciso de mais, quero um beijo. Será que to devia pedir ou fico só aqui assim, sem fazer nada? Parece-me que o mar já não é tão branco… a praia ainda está lá, mas nós nunca a vimos, porque estamos os dois aqui no carro.
Nesse dia, a minha mãe estava a ser simpática e eu a queixar-me dela assim que saiu e tu a lamberes a ferida de não teres uma mãe. Desculpa não ter visto a tua dor, estava muito ocupado com o meu embaraço e disse coisas só por dizer para cobrir com terra o mais rápido que pudesse aquele buraco fundo que era estar contigo sozinho em casa e querer fazer amor contigo. Não sei em que altura é que te vi chorar pela primeira vez, talvez tenha sido na festa de anos do meu priminho Joel, não sei bem, mas sei que nessa altura te compreendi profundamente e senti o  poço de morte em que se tornara o teu peito, onde tu conduzias como louca para fugir àquela negridão de não ter mãe.
Tive medo de não saber falar contigo, de não perceberes que eu te conseguia compreender, mesmo passando a vida a dizer coisas pela boca fora sobre a minha mãe. Agora já percebi há muito tempo que não preciso de falar, sei que nos encontrámos um momento antes das palavras se designarem umas às outras. Mas será que nos entenderemos mesmo quando nos beijarmos? É incrível como tu consegues falar sem parar sem te tornares chata e depois podes ficar assim, como agora, a encher o espaço com a tua presença, sem qualquer palavra. Que mais coisas tens para me contar? Já sei que entraste para a universidade no mesmo ano que eu, que frequentamos o mesmo supermercado, mas tu fazes as compras para ti e para a família todos os Sábados de manhã e eu vou só de vez em quando fazer recados à minha mãe. Sei tanta coisa sobre ti que nunca mais acabaria de pensar em tudo… só não sei a que sabem os teus lábios…
E o beijo aconteceu! O beijo! Tu e eu! E a praia a dormir lá em baixo e o mar que não sei que cor tem, nem sei se é dia ou noite nem nada, nada… porque nos beijámos! E o abraço chegou também!
E foi então que tu disseste a palavra que se eu pudesse traduzir seria “futuro”! Na verdade, tu só me beijaste de novo, acho que não disseste nada, porque nos abraçámos e beijámos muito. E eu comecei então a fazer-te promessas, havemos de acabar o curso e benzer as pastas juntos, havemos de comprar roupa de gala e ir juntos a uma ópera no S. Carlos, havemos de ter um carro nosso e viajar tanto que nem precisaremos de uma casa. Queres ser minha namorada?
Um dia havemos de descer juntos as escadas do nosso bairro a correr, vestidos de noivos e vamos ter o casamento mais maluco que os nossos amigos alguma vez viram. Quem me dera que esse dia fosse hoje… mas este dia já é muito grande, nem sei se este dia é ainda o mesmo dia, este dia em que te beijei, em que nos beijámos. Hoje foi uma vitória tão grande, parece quase que conseguiria explicar a toda a gente como me sinto quando te vejo e contemplo a tua cor de cabelo! Parece que a tua beleza  é concreta e fácil de explicar.
Gostava que a tua vida fosse mais fácil, embora tu não te queixes, é certo, mas não deve ser fácil teres de aturar as loucuras do teu irmão e a indiferença do teu pai. Vou confessar-te, não me sinto nada confortável quando estou com eles: o teu irmão a ouvir a música nas alturas e o teu pai a fazer de conta que não ouve. Ele será surdo? E tu a seres mãe deles quando tudo o que precisavas era de um colo para ti. Não posso nem te quero prometer que te dou o amor que a tua mãe te daria, mas se o amor é todo o mesmo, então podes crer que o que te vou dar é um perfume muito bom da tua mãe.
Para já, vou mandar uma mensagem a todos os nossos amigos e convidá-los a irem ter comigo amanhã ao café, vão ter cá uma surpresa quando nos virem de mãos dadas.  Bem, eles até já nos viram de mãos dadas, ainda há pouco tempo quando fomos ao concerto da Katie Melua íamos bem agarradinhos, com a desculpa que era para não nos perdermos no meio da multidão. Mas eles perceberão logo que já não somos só amigos inseparáveis, hão-de reparar na forma natural como nos tocamos e, se não perceberem, também não vou demorar muito tempo até lhes contar. Saberão que este beijo é real. Mas não poderão saber tudo o que eu sei porque este beijo me conta.
E este beijo não sabe ainda que teremos um dia de chorar, não compreende que teremos um dia que discutir, não percebe que teremos de nos esquecer deste momento e recomeçar de novo. Este beijo não pode imaginar que haverá outros primeiros beijos. Será que saberemos esperar por eles como esperámos por este?

segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

Arrepio

O cheiro de um crime é horrível, mesmo que tenha acontecido há 20 anos, ainda que nessa altura nem tivéssemos nascido ainda.
A Tatyana não só não tinha ainda vindo a este mundo, como ainda por cima é de bem longe, mas tem os olhos embaciados de espanto e a pele inquieta de tremor.
Descobriu que a barraca que ela e a família reconstruíram debaxo da linha do comboio e que tinha sido em tempos -já depois de ter abrigado o assassinato- destruída por máquinas retroescavadoras foi palco de um episódio atroz.
E soube disso pela televisão, mas aquele odor a sangue agora persegue-a e dá-lhe náuseas. Ela sabe que o mal existe e é concreto, tão real como o barulho do comboio que passa de 5 em 5 minutos e abafa os gritos que aquela mulher estrangulada deve ter vomitado.

domingo, 13 de novembro de 2011

Os olhos da Tatyana


Neste país as pessoas parecem mais altas do que na Roménia, mas é por as ver de baixo para cima que acho isso. Sento-me no passeio, encostada a um parquímetro, em cima de um cartão que não evita que sinta o frio e a humidade do chão. Seguro uma garrafa de plástico cortada com 2 moedas dentro que vou abanando para lembrar quem passa de me dar uma esmola, como quem agita uma roca para atrair a atenção de um bebé. Hoje não trouxe o meu rico menino, está muito constipado, ficou com a minha prima. De vez em quando dou uma espreitadela para os lados da barraca, embora não a veja daqui, mas se não vem lá ninguém a descer a encosta é porque deve estar tudo bem.

Se estivesse a chover ia ali para debaixo da linha do comboio, saem de lá magotes de gente que passam por mim e não me vêem, ou se vêem não ouvem porque levam coisas a tapar os ouvidos. No entanto, não precisam de ouvir o que digo ou ler a mensagem escrita num papelão, percebem perfeitamente o que estou a fazer e passam ao lado. De vez em quando alguém se aproxima e deixa uma moeda, mas nem olha para mim. Não me importo. Às vezes penso como seria se também eu apanhasse o comboio e andasse na rua distraída sem ter de me preocupar com o que comer. Nesse dia daria esmola a todos os pedintes que encontrasse e talvez também um sorriso, depende da confiança que me inspirassem, mas se fossem mães com crianças ia querer brincar um bocadinho com o menino ou pelo menos saber o nome e a idade da criança e iria reparar que estava constipada. Mas não sei andar de pé, não sei fazer nada, não posso deixar os meninos, nem sei que caminhos escolheria e que comboio apanharia.

Se estiver bom tempo, prefiro ficar na rua, não há seguranças a chatear-me e há mais distracções, além de não ficar tão escondida pelas multidões. Aqui há muitos prédios, alguns bem impressionantes, por mais que tente puxar pela cabeça não consigo ter ideia do que toda esta gente faz lá dentro. Sei que vão sempre com muita pressa e que é com o que ganham lá que se vestem bem e comem tudo o que querem, mas o que fazem não faço ideia. Compreendo o trabalho do restaurante e das cafetarias aqui da rua e também sei o que tem de fazer o chinês da loja de roupa, mas nos andares superiores não consigo imaginar. Habituei-me a ver estas pessoas e estas ruas e estas lojas como paisagem, fazem parte de outra realidade à qual eu não pertenço e por isso acabo por não as ver, nem aos seus carros, nem aos sacos e bolsas que carregam. Vejo, isso sim, os polícias, os varredores de rua, os carteiros e os taxistas, que me insultam, desprezam e expulsam da rua.

Ganhei 5,15€ hoje, vou à loja do chinês comprar massa para o jantar, passo no supermercado e compro vinho para o marido e com o que me restar hei-de ir à farmácia comprar alguma coisa para a tosse do menino. Depois atravesso a linha, subo a encosta da estrada, contorno a “horta” do Ti Manel a quem comprarei cenouras e chegarei à nossa barraca. Espero que o Ronan esteja melhor. Hei-me abraçá-lo e dar-lhe mama.

terça-feira, 8 de novembro de 2011

Ternura II

Impecavelmente bem vestido, com um fato de fazenda apropriado para o tempo frio, aparenta ter uns 80 anos. É moreno, encorpado e tem olhos esbugalhados com umas olheiras tão profundas que parece já ter sido ali o sítio dos olhos agora empurrados para cima. A cara larga suporta ainda uma boca em forma de curva descendente, relaxada.
Sento-me à sua frente no metro e não fico indiferente ao ramosque leva na mão com a mesma naturalidade com que seguraria uma bengala ou um guarda-chuva.
São duas orquídeas em tons neutros, atadas uma à outra por uma linha branca de costura.

terça-feira, 25 de outubro de 2011

Ternura


A imagem é bonita: são velhos e vão de mãos dadas. Têm um aspecto simples e rude, desajeitado, de quem ensinou a vida a ganhar o pão em cada dia. A contemplação da ternura das suas silhuetas a caminharem assim juntinhos à minha frente enterneceu-me e lembrou-me as lágrimas que chorei devagarinho há poucos dias quando vi uma rapariga jovem e bonita a ajudar uma idosa coxa a atravessar uma rua perigosa. Fiquei tão feliz, como se tivesse encontrado uma prova irrefutável para comprovar uma teoria: o mundo está mesmo povoado de pessoas boas.

Rapidamente me aproximei dos velhinhos e quando os ultrapassei já eles estavam junto ao seu carro. Ele dentro a tentar abrir a porta dela que do lado de fora resmungava que não conseguia entrar. Ele esticava-se todo e ia puxando o manípulo, barafustando por seu lado. Quebraram qualquer coisa naquele momento não na porta, nem no carro, mas no cenário que tinham protagonizado. Partiram o vidro da moldura engalanada de quadro de museu e saltaram para a vida concreta, fraca, vil, mas linda ainda assim.

E eu segui, com um sorriso nos lábios, divertida com a rabugice deles.

terça-feira, 27 de setembro de 2011

Pureza




A água era o seu maior fascínio, passava horas a brincar com os pés num rego, a alterar o seu percurso, a fazer experiências com as pedras e a encantar-se com a forma como a água arranjava sempre uma forma de contornar os obstáculos.

Às vezes também brincava com as primas mais velhas, mas elas só gostavam de bonecas e de conjuntos de chá e de café de brincar que nunca sujavam e onde ela não podia colocar o excelente café de terra que fazia porque os brinquedos das primas nunca iam para a rua.


Era por isso que ela se juntava mais com o cenourinha, um rapazinho apelidado pelos outros de “atrasado”, nome que ela nunca compreendeu bem porque ele era sempre o primeiro a aparecer na rua de manhã com os beiços ainda sujos de chocolate e com um sorriso rasgado quando a mãe o levava para brincar com os outros meninos que à medida que iam aparecendo faziam grupos,equipas, planeavam jogos sem nunca o incluírem. Sabia que também não era por ele chegar atrasado à escola, mas que era por causa da escola que ele tinha aquela fama. Embora fossem da mesma idade, ele não passava do primeiro ano. Gostava dele porque tinha a doçura das meninas, mas mais paciência do que elas.

Quando passava o autocarro na rua deles, costumavam parar de brincar para verem o que as pessoas traziam da cidade: instrumentos musicais de plástico, sacos de fruta, árvores para replantar, roupas novas, doces, chapéus da moda... Às vezes, ofereciam-se para ajudarem alguma tia ou vizinha a carregarem os sacos, mas desta vez não conheciam ninguém e mantiveram-se encostados a um cano de água a tentar compreender a voz de trovão que lhes falava lá de dentro. E a menina viu então junto à hera do muro um frasquinho pequeno com água lá dentro. Desta vez, achou mais graça ao frasco em forma de rosa do que ao líquido e apanhou-o fascinada. O cenourinha olhava-a com olhos grandes e lábio inferior relaxado. Nunca tinham visto uma garrafa tão bonita e decidiram deitar fora a água para ver como ficaria cheia de líquidos de outra cor. Deram então conta que não era água, mas sim um perfume e arrependeram-se de o ter desperdiçado, mas nessa altura já os seus sapatos e meias estavam salpicados e o frasco não tinha nem mais uma gota e eles divertiram-se a fazer misturas de água com pétalas, batido de folhas e cal que saía do muro.

Nesse dia acabou o Verão e os sapatos foram arrumados. Muitas voltas o mundo deu até que, num dia de Outono, a menina já mulher levou a sua filha à escola das crianças agora chamadas “especiais”, ela continuava sem entender a expressão porque achava que só por serem crianças todas eram especiais. A menina levava nos pés os sapatos que a mãe da mulher arrumara há tanto tempo atrás. Quando chegaram foram conhecer os ateliers criativos e a mãe da menina viu numa prateleira da sala de trabalhos manuais um frasco em forma de rosa com areia colorida lá dentro que reconheceu e lembrou-se do perfume que ainda estava nos sapatos da menina e a transportava para momentos felizes. Olhou melhor para o formador, era o cenourinha. Foi falar com ele e contou-lhe tanta coisa, descrevendo com todos os pormenores a gravidez da filha e a origem da deficiência dela. Ele não percebeu nada, mas mostrou-lhe um sorriso tão doce e puro que lhe pareceu água e ela sentiu-se em casa. E começou a entender porque é que a sua filha era especial.


sexta-feira, 23 de setembro de 2011

Maternidade




Tão improvável como ter nascido neste sítio foi ter chegadocá agora mais de 30 anos depois. A caminhar ao acaso pela cidade: avirar à direita ou à esquerda ao calhas conforme o lado da rua onde bate o sol,arrepiozinho de prazer; a parar para ver um pormenor da rua que fotografo: aolado da tabuleta oficial “Rua da Torrinha”, outra indicação pintada na paredeelucida “Rua Júlia Nogueira, ínsígne mestre das sirigaitas”; a desviar-me de umabelhão que plana à altura do meu nariz; mais à frente vejo do lado direito darua um palácio imponente que parece ter sido transformado numa discoteca eimpressiono-me com o facto de os vidros frágeis e velhos estarem todosintactos… e depois “Maternidade Júlio Dinis”. Mas foi aqui que eu nasci!! E averdade é que nunca mais cá tinha voltado. Quis entrar, o sítio onde nascemosafinal será sempre a nossa casa.

Apesar de a minha mãe me ter registado como natural dafreguesia onde sempre vivi, eu sou daqui porque foi este mundo que abriu umacratera para me acolher e me deixou ganhar fôlego e gritar. Obrigada pedras,lago e buganvílias secas, mesmo que já não sejam os mesmos!

Onde será que estacionou a ambulância que atravessou ascurvas da montanha com a minha mãe a contorcer-se de dores? Quem terá visto omeu rosto pela primeira vez? E o que terá sentido o meu pai quando entrou aquihoras depois depois de uma viagem atribulada de camioneta com os nervos aquererem sair pela boca?

Não sei se são as vidas, as pedras ou o medo reciclados queme sussurram agora numa frescura matinal: “a viagem foi longa, mas chegaste aosítio certo, está tudo pronto, podes nascer”.

quinta-feira, 23 de junho de 2011

Movimento


Cheguei à porta da Loja do Cidadão cedo demais, já não valia a pena ir para a fila que dava a volta ao quarteirão, mas também não podia entrar sem deixar escoar, gota a gota, aquela gente toda lá para dentro. Fiquei por isso parada no meio da rua, sentindo a pulsão da multidão a girar à minha volta, organizadamente. Eu, de auscultadores nos ouvidos, abstraída, serena, em paz, a rezar, a ser o centro do mundo. À minha volta, pessoas, pessoas, a serem cenário, enquadramento, a darem movimento àquele momento, a não serem pessoas porque nem as conheço, nem as ouço, nem as vejo.
Eu e o meu egoísmo, mas a paz daquela música, daquela abstracção, a chamar-me a dar rostos às pessoas. São só estranhos, nunca poderei contar as suas histórias, mas fizeram parte da minha história e essa se quisesse podia contar.
Fico assim mais uns minutos e daqui a nada na minha cabeça muitas coisas darão forma aos meus pensamentos: fazer isto, falar daquilo, não me esquecer de, despachar-me. E mais logo comprar, arrumar, avisar, telefonar.
Mas naquele momento era eu, ali, sem pensar.
E vieram outros dias: tempestades interiores, dúvidas, medo e paixão. Vieram outros momentos de auscultadores nos ouvidos, a mesma música até. E aquilo que eu sou a espreitar aqui e ali. Eu a escrever-me sem saber a minha história. Mas ficará aquele momento, aquela frase minha, até a esquecer ou a riscar.

sábado, 26 de fevereiro de 2011

Estórias



Encontro-a por acaso na rua depois de algum tempo sem a ver no salão. A Marlene está gira como sempre: usa roupa curta e apertada dos últimos saldos das lojas de roupa para massas do shopping e está maquilhada demais para o meu gosto. Mas muito ela, toda equilibrada em cima dos seus 21 anos, amparada ainda assim no braço do namorado, não vá um salto deixá-la mal.

Sorri quando me vê e pára para cumprimentar. Não posso deixar de reparar que tem a blusa molhada, uma gotinha no peito. Comento isso.

- Ah!! Que chatice! Estes coisos não prestam, tanto faz pô-los como não. Mas prontos. Olhe, doutora, temos de ir, estamos com pressa.

Percebi depois quando fui arranjar o cabelo.

A rapariga era o tema de conversa preferido e o principal alvo da pena e espanto do mulherio. Ia visitar os dois gémeos que tinha tido há 15 dias atrás e estavam numa incubadora por terem nascido antes do tempo.

Lembrei-me das conversas dela acerca dos reality shows e telenovelas na tv, das saídas à noite e dos mexericos do cabeleireiro e pensei: “será que nas revistas que ela lia aprendeu alguma coisa sobre bebés?” Mas ela só lia os títulos e algum parágrafo mais gordo, de resto o que a seduzia mesmo eram as imagens, as roupas, os penteados e a elegância ou falta dela...

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

Água


Estás grávida, perdes uma manhã para mostrar uns papeis a uma médica, para ela em menos de 5 minutos te despachar com palavras à deriva que te perturbam. Isto não sem antes teres pedido especial favor para seres atendida depois de teres guardado a sua porta horas a fio em pé com o barrigão e ainda teres ouvido umas bocas de uns velhotes por estares a passar à sua frente.

Sais para ir à tua vida com os olhos húmidos e um qualquer combate de kickboxing ali para os lados do peito entre o arrogante alívio por teres saído dali e o sempre vencedor medo do desconhecido.

Ainda não tínhamos dito que chove e que vais em passo rápido, queres te afastar dali, apanhar o metro, esquecer. E é então que passa um carro e com toda a perícia esvazia uma poça de água da estrada completamente para cima de ti. Choras.

sábado, 25 de setembro de 2010

Amor


Tivemos um dia perfeito, como se fôssemos protagonistas de um filme, mas sem algodão doce nem feira popular. Sem pôr-do-sol, praia dourada, lua cheia ou jardim encantado. Sem música arrebatadora nem gestos de romantismo. Como cenário, ruas escavacadas, uma casa de banho com o chão enlameado, uma sandes comida a correr ao almoço, o barulho ensurdecedor de um autocarro num túnel.
Mas podíamos ter sido um par perfeito de Hollywood, tivemos intensidade interior para isso, que no cinema teria de ter novas expressões para ser transmitida, mas nós não somos realizadores, não temos de descobrir como tornar bonito por fora aquilo que só é plenitude cá dentro.
Nós só fomos os actores principais, a caminhar lado a lado, sem cenas de beijos nem actos de heroísmo, com os pés sujos e uma piada sussurrada ao ouvido que os microfones não captariam. Só nossa. Como o mundo. Como este dia

domingo, 19 de setembro de 2010

Onde ficam as Escadinhas das Portas do Mar?


Não seguimos em frente, passamos por baixo de um arco que nos leva a uma ruela escura que não sabemos se tem saída e que deve cheirar a mijo, mas não, cheira a caril de um restaurante indiano. Aqui a renda é com certeza mais barata do que na rua principal onde todos os turistas confluem.

Paramos numa padaria para comprar uma garrafa de água e depois sentamo-nos numas escadinhas a observar. Um gato fareja aqui e ali e um homem que passa diz para a menina que brinca na varanda do primeiro andar em frente à padaria que o gato está grávido. Ouvem-se risos. Noutra varanda da casa, esta virada para nós, a mãe da menina fala ao telemóvel e reclama com uma operadora de call centre.

Em frente a nós, dois estudantes vestidos de preto e com pronúncia do Norte insultam o cabrão do homem que recebeu o dinheiro da renda e agora não põe a máquina de lavar roupa. Contornam-nos, sobem as escadas e batem com a porta.

Um homem consegue arranjar espaço naquela ruinha para estacionar uma carrinha enorme entre nós e a padaria, vai fazer contas com a senhora da padaria e depois sai com um saco de plástico daqueles do pão meio cheio de moedas. Vai-se embora.

Passa uma mulher que não tem aspecto de turista com um mapa de um guia turístico na mão, enquanto um homem bem vestido de fato continua a falar ao telemóvel na rua sem se saber onde pertence.

Agora começa a cheirar a pescada e batatas cozidas, mas o caril é mais forte. E ainda cabe mais um carro.

No meio das casas há uma chaminé de tijolo laranja de uma fábrica.

O gato grávido afinal é chamado pela menina filha da mulher que reclama ao telemóvel de Maria. A senhora da padaria limpa o balcão para fechar. Passa uma família de um português, uma espanhola e duas meninas pequeninas cada uma com uma bicicleta e chamam Inês à menina que chamou o gato de Maria.

O gato ronrona a um cão em miniatura que veio à rua passear ou será que é o cão que rosna ao gato grávido?

A mulher acabou a conversa e desliga o telemóvel. A padaria já tem as luzes apagadas.

Há outro cão que espreita na janela em frente à varanda da Inês e recebe festas enquanto a dona estende um tapete.

Dois estrangeiros perguntam-nos como se vai “para riba?” e nós não sabemos, mas um homem que chega com sacos de supermercado logo explica que têm de ir pela estrada. O homem entra no prédio onde vive o cão que recebe festas e volta a sair, dizendo para a mulher do telemóvel “já viste? Meteram mais um carro naquele cantinho. Se há uma emergência estou para ver como é que é!”. Vai-se embora e a mulher manda o marido ligar “agora!” ao Hugo a ver se eles querem almoçar no Domingo. A mulher vem novamente falar ao telemóvel para a varanda, pergunta se preferem uma grelhada mista ou o bacalhau que ali é muito bom e sai mais barato.

Ouve-se o arrulhar de um pombo, começa a ficar mais escuro e há um brisa fresca no ar, mas não cheira mal aqui. Chega até nós o som de talheres a bater nos pratos. Em volta do letreiro do restaurante indiano piscam luzes de Natal.