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terça-feira, 25 de outubro de 2011
Ternura
terça-feira, 27 de setembro de 2011
Pureza
sexta-feira, 23 de setembro de 2011
Maternidade
Tão improvável como ter nascido neste sítio foi ter chegadocá agora mais de 30 anos depois. A caminhar ao acaso pela cidade: avirar à direita ou à esquerda ao calhas conforme o lado da rua onde bate o sol,arrepiozinho de prazer; a parar para ver um pormenor da rua que fotografo: aolado da tabuleta oficial “Rua da Torrinha”, outra indicação pintada na paredeelucida “Rua Júlia Nogueira, ínsígne mestre das sirigaitas”; a desviar-me de umabelhão que plana à altura do meu nariz; mais à frente vejo do lado direito darua um palácio imponente que parece ter sido transformado numa discoteca eimpressiono-me com o facto de os vidros frágeis e velhos estarem todosintactos… e depois “Maternidade Júlio Dinis”. Mas foi aqui que eu nasci!! E averdade é que nunca mais cá tinha voltado. Quis entrar, o sítio onde nascemosafinal será sempre a nossa casa.
quinta-feira, 23 de junho de 2011
Movimento
Cheguei à porta da Loja do Cidadão cedo demais, já não valia a pena ir para a fila que dava a volta ao quarteirão, mas também não podia entrar sem deixar escoar, gota a gota, aquela gente toda lá para dentro. Fiquei por isso parada no meio da rua, sentindo a pulsão da multidão a girar à minha volta, organizadamente. Eu, de auscultadores nos ouvidos, abstraída, serena, em paz, a rezar, a ser o centro do mundo. À minha volta, pessoas, pessoas, a serem cenário, enquadramento, a darem movimento àquele momento, a não serem pessoas porque nem as conheço, nem as ouço, nem as vejo.
Eu e o meu egoísmo, mas a paz daquela música, daquela abstracção, a chamar-me a dar rostos às pessoas. São só estranhos, nunca poderei contar as suas histórias, mas fizeram parte da minha história e essa se quisesse podia contar.
Fico assim mais uns minutos e daqui a nada na minha cabeça muitas coisas darão forma aos meus pensamentos: fazer isto, falar daquilo, não me esquecer de, despachar-me. E mais logo comprar, arrumar, avisar, telefonar.
Mas naquele momento era eu, ali, sem pensar.
E vieram outros dias: tempestades interiores, dúvidas, medo e paixão. Vieram outros momentos de auscultadores nos ouvidos, a mesma música até. E aquilo que eu sou a espreitar aqui e ali. Eu a escrever-me sem saber a minha história. Mas ficará aquele momento, aquela frase minha, até a esquecer ou a riscar.
sábado, 26 de fevereiro de 2011
Estórias
Encontro-a por acaso na rua depois de algum tempo sem a ver no salão. A Marlene está gira como sempre: usa roupa curta e apertada dos últimos saldos das lojas de roupa para massas do shopping e está maquilhada demais para o meu gosto. Mas muito ela, toda equilibrada em cima dos seus 21 anos, amparada ainda assim no braço do namorado, não vá um salto deixá-la mal.
Sorri quando me vê e pára para cumprimentar. Não posso deixar de reparar que tem a blusa molhada, uma gotinha no peito. Comento isso.
- Ah!! Que chatice! Estes coisos não prestam, tanto faz pô-los como não. Mas prontos. Olhe, doutora, temos de ir, estamos com pressa.
Percebi depois quando fui arranjar o cabelo.
A rapariga era o tema de conversa preferido e o principal alvo da pena e espanto do mulherio. Ia visitar os dois gémeos que tinha tido há 15 dias atrás e estavam numa incubadora por terem nascido antes do tempo.
Lembrei-me das conversas dela acerca dos reality shows e telenovelas na tv, das saídas à noite e dos mexericos do cabeleireiro e pensei: “será que nas revistas que ela lia aprendeu alguma coisa sobre bebés?” Mas ela só lia os títulos e algum parágrafo mais gordo, de resto o que a seduzia mesmo eram as imagens, as roupas, os penteados e a elegância ou falta dela...
quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011
Água
Estás grávida, perdes uma manhã para mostrar uns papeis a uma médica, para ela em menos de 5 minutos te despachar com palavras à deriva que te perturbam. Isto não sem antes teres pedido especial favor para seres atendida depois de teres guardado a sua porta horas a fio em pé com o barrigão e ainda teres ouvido umas bocas de uns velhotes por estares a passar à sua frente.
Sais para ir à tua vida com os olhos húmidos e um qualquer combate de kickboxing ali para os lados do peito entre o arrogante alívio por teres saído dali e o sempre vencedor medo do desconhecido.
Ainda não tínhamos dito que chove e que vais em passo rápido, queres te afastar dali, apanhar o metro, esquecer. E é então que passa um carro e com toda a perícia esvazia uma poça de água da estrada completamente para cima de ti. Choras.
sábado, 25 de setembro de 2010
Amor

Tivemos um dia perfeito, como se fôssemos protagonistas de um filme, mas sem algodão doce nem feira popular. Sem pôr-do-sol, praia dourada, lua cheia ou jardim encantado. Sem música arrebatadora nem gestos de romantismo. Como cenário, ruas escavacadas, uma casa de banho com o chão enlameado, uma sandes comida a correr ao almoço, o barulho ensurdecedor de um autocarro num túnel.