terça-feira, 8 de novembro de 2011

Ternura II

Impecavelmente bem vestido, com um fato de fazenda apropriado para o tempo frio, aparenta ter uns 80 anos. É moreno, encorpado e tem olhos esbugalhados com umas olheiras tão profundas que parece já ter sido ali o sítio dos olhos agora empurrados para cima. A cara larga suporta ainda uma boca em forma de curva descendente, relaxada.
Sento-me à sua frente no metro e não fico indiferente ao ramosque leva na mão com a mesma naturalidade com que seguraria uma bengala ou um guarda-chuva.
São duas orquídeas em tons neutros, atadas uma à outra por uma linha branca de costura.

terça-feira, 25 de outubro de 2011

Ternura


A imagem é bonita: são velhos e vão de mãos dadas. Têm um aspecto simples e rude, desajeitado, de quem ensinou a vida a ganhar o pão em cada dia. A contemplação da ternura das suas silhuetas a caminharem assim juntinhos à minha frente enterneceu-me e lembrou-me as lágrimas que chorei devagarinho há poucos dias quando vi uma rapariga jovem e bonita a ajudar uma idosa coxa a atravessar uma rua perigosa. Fiquei tão feliz, como se tivesse encontrado uma prova irrefutável para comprovar uma teoria: o mundo está mesmo povoado de pessoas boas.

Rapidamente me aproximei dos velhinhos e quando os ultrapassei já eles estavam junto ao seu carro. Ele dentro a tentar abrir a porta dela que do lado de fora resmungava que não conseguia entrar. Ele esticava-se todo e ia puxando o manípulo, barafustando por seu lado. Quebraram qualquer coisa naquele momento não na porta, nem no carro, mas no cenário que tinham protagonizado. Partiram o vidro da moldura engalanada de quadro de museu e saltaram para a vida concreta, fraca, vil, mas linda ainda assim.

E eu segui, com um sorriso nos lábios, divertida com a rabugice deles.

terça-feira, 27 de setembro de 2011

Pureza




A água era o seu maior fascínio, passava horas a brincar com os pés num rego, a alterar o seu percurso, a fazer experiências com as pedras e a encantar-se com a forma como a água arranjava sempre uma forma de contornar os obstáculos.

Às vezes também brincava com as primas mais velhas, mas elas só gostavam de bonecas e de conjuntos de chá e de café de brincar que nunca sujavam e onde ela não podia colocar o excelente café de terra que fazia porque os brinquedos das primas nunca iam para a rua.


Era por isso que ela se juntava mais com o cenourinha, um rapazinho apelidado pelos outros de “atrasado”, nome que ela nunca compreendeu bem porque ele era sempre o primeiro a aparecer na rua de manhã com os beiços ainda sujos de chocolate e com um sorriso rasgado quando a mãe o levava para brincar com os outros meninos que à medida que iam aparecendo faziam grupos,equipas, planeavam jogos sem nunca o incluírem. Sabia que também não era por ele chegar atrasado à escola, mas que era por causa da escola que ele tinha aquela fama. Embora fossem da mesma idade, ele não passava do primeiro ano. Gostava dele porque tinha a doçura das meninas, mas mais paciência do que elas.

Quando passava o autocarro na rua deles, costumavam parar de brincar para verem o que as pessoas traziam da cidade: instrumentos musicais de plástico, sacos de fruta, árvores para replantar, roupas novas, doces, chapéus da moda... Às vezes, ofereciam-se para ajudarem alguma tia ou vizinha a carregarem os sacos, mas desta vez não conheciam ninguém e mantiveram-se encostados a um cano de água a tentar compreender a voz de trovão que lhes falava lá de dentro. E a menina viu então junto à hera do muro um frasquinho pequeno com água lá dentro. Desta vez, achou mais graça ao frasco em forma de rosa do que ao líquido e apanhou-o fascinada. O cenourinha olhava-a com olhos grandes e lábio inferior relaxado. Nunca tinham visto uma garrafa tão bonita e decidiram deitar fora a água para ver como ficaria cheia de líquidos de outra cor. Deram então conta que não era água, mas sim um perfume e arrependeram-se de o ter desperdiçado, mas nessa altura já os seus sapatos e meias estavam salpicados e o frasco não tinha nem mais uma gota e eles divertiram-se a fazer misturas de água com pétalas, batido de folhas e cal que saía do muro.

Nesse dia acabou o Verão e os sapatos foram arrumados. Muitas voltas o mundo deu até que, num dia de Outono, a menina já mulher levou a sua filha à escola das crianças agora chamadas “especiais”, ela continuava sem entender a expressão porque achava que só por serem crianças todas eram especiais. A menina levava nos pés os sapatos que a mãe da mulher arrumara há tanto tempo atrás. Quando chegaram foram conhecer os ateliers criativos e a mãe da menina viu numa prateleira da sala de trabalhos manuais um frasco em forma de rosa com areia colorida lá dentro que reconheceu e lembrou-se do perfume que ainda estava nos sapatos da menina e a transportava para momentos felizes. Olhou melhor para o formador, era o cenourinha. Foi falar com ele e contou-lhe tanta coisa, descrevendo com todos os pormenores a gravidez da filha e a origem da deficiência dela. Ele não percebeu nada, mas mostrou-lhe um sorriso tão doce e puro que lhe pareceu água e ela sentiu-se em casa. E começou a entender porque é que a sua filha era especial.


sexta-feira, 23 de setembro de 2011

Maternidade




Tão improvável como ter nascido neste sítio foi ter chegadocá agora mais de 30 anos depois. A caminhar ao acaso pela cidade: avirar à direita ou à esquerda ao calhas conforme o lado da rua onde bate o sol,arrepiozinho de prazer; a parar para ver um pormenor da rua que fotografo: aolado da tabuleta oficial “Rua da Torrinha”, outra indicação pintada na paredeelucida “Rua Júlia Nogueira, ínsígne mestre das sirigaitas”; a desviar-me de umabelhão que plana à altura do meu nariz; mais à frente vejo do lado direito darua um palácio imponente que parece ter sido transformado numa discoteca eimpressiono-me com o facto de os vidros frágeis e velhos estarem todosintactos… e depois “Maternidade Júlio Dinis”. Mas foi aqui que eu nasci!! E averdade é que nunca mais cá tinha voltado. Quis entrar, o sítio onde nascemosafinal será sempre a nossa casa.

Apesar de a minha mãe me ter registado como natural dafreguesia onde sempre vivi, eu sou daqui porque foi este mundo que abriu umacratera para me acolher e me deixou ganhar fôlego e gritar. Obrigada pedras,lago e buganvílias secas, mesmo que já não sejam os mesmos!

Onde será que estacionou a ambulância que atravessou ascurvas da montanha com a minha mãe a contorcer-se de dores? Quem terá visto omeu rosto pela primeira vez? E o que terá sentido o meu pai quando entrou aquihoras depois depois de uma viagem atribulada de camioneta com os nervos aquererem sair pela boca?

Não sei se são as vidas, as pedras ou o medo reciclados queme sussurram agora numa frescura matinal: “a viagem foi longa, mas chegaste aosítio certo, está tudo pronto, podes nascer”.

quinta-feira, 23 de junho de 2011

Movimento


Cheguei à porta da Loja do Cidadão cedo demais, já não valia a pena ir para a fila que dava a volta ao quarteirão, mas também não podia entrar sem deixar escoar, gota a gota, aquela gente toda lá para dentro. Fiquei por isso parada no meio da rua, sentindo a pulsão da multidão a girar à minha volta, organizadamente. Eu, de auscultadores nos ouvidos, abstraída, serena, em paz, a rezar, a ser o centro do mundo. À minha volta, pessoas, pessoas, a serem cenário, enquadramento, a darem movimento àquele momento, a não serem pessoas porque nem as conheço, nem as ouço, nem as vejo.
Eu e o meu egoísmo, mas a paz daquela música, daquela abstracção, a chamar-me a dar rostos às pessoas. São só estranhos, nunca poderei contar as suas histórias, mas fizeram parte da minha história e essa se quisesse podia contar.
Fico assim mais uns minutos e daqui a nada na minha cabeça muitas coisas darão forma aos meus pensamentos: fazer isto, falar daquilo, não me esquecer de, despachar-me. E mais logo comprar, arrumar, avisar, telefonar.
Mas naquele momento era eu, ali, sem pensar.
E vieram outros dias: tempestades interiores, dúvidas, medo e paixão. Vieram outros momentos de auscultadores nos ouvidos, a mesma música até. E aquilo que eu sou a espreitar aqui e ali. Eu a escrever-me sem saber a minha história. Mas ficará aquele momento, aquela frase minha, até a esquecer ou a riscar.

sábado, 26 de fevereiro de 2011

Estórias



Encontro-a por acaso na rua depois de algum tempo sem a ver no salão. A Marlene está gira como sempre: usa roupa curta e apertada dos últimos saldos das lojas de roupa para massas do shopping e está maquilhada demais para o meu gosto. Mas muito ela, toda equilibrada em cima dos seus 21 anos, amparada ainda assim no braço do namorado, não vá um salto deixá-la mal.

Sorri quando me vê e pára para cumprimentar. Não posso deixar de reparar que tem a blusa molhada, uma gotinha no peito. Comento isso.

- Ah!! Que chatice! Estes coisos não prestam, tanto faz pô-los como não. Mas prontos. Olhe, doutora, temos de ir, estamos com pressa.

Percebi depois quando fui arranjar o cabelo.

A rapariga era o tema de conversa preferido e o principal alvo da pena e espanto do mulherio. Ia visitar os dois gémeos que tinha tido há 15 dias atrás e estavam numa incubadora por terem nascido antes do tempo.

Lembrei-me das conversas dela acerca dos reality shows e telenovelas na tv, das saídas à noite e dos mexericos do cabeleireiro e pensei: “será que nas revistas que ela lia aprendeu alguma coisa sobre bebés?” Mas ela só lia os títulos e algum parágrafo mais gordo, de resto o que a seduzia mesmo eram as imagens, as roupas, os penteados e a elegância ou falta dela...

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

Água


Estás grávida, perdes uma manhã para mostrar uns papeis a uma médica, para ela em menos de 5 minutos te despachar com palavras à deriva que te perturbam. Isto não sem antes teres pedido especial favor para seres atendida depois de teres guardado a sua porta horas a fio em pé com o barrigão e ainda teres ouvido umas bocas de uns velhotes por estares a passar à sua frente.

Sais para ir à tua vida com os olhos húmidos e um qualquer combate de kickboxing ali para os lados do peito entre o arrogante alívio por teres saído dali e o sempre vencedor medo do desconhecido.

Ainda não tínhamos dito que chove e que vais em passo rápido, queres te afastar dali, apanhar o metro, esquecer. E é então que passa um carro e com toda a perícia esvazia uma poça de água da estrada completamente para cima de ti. Choras.